Indústria calçadista de Nova Serrana enfrenta crise de empregos

Fábricas reduzem produção em 50% e dispensam 1.218 trabalhadores. Agências de emprego ficam vazias e comércio lojista tenta sobreviver.

Por Ricardo Welbert
Do G1 Centro-Oeste de Minas

Fábrica de calçados em Nova Serrana: produção na
cidade caiu 50% e  enfrenta uma crise de empregos nunca antes vista na indústria de transformação. Os fabricantes de calçados sentiram a queda do consumo e reduziram em 50% a produção, o que levou à demissão de 700 trabalhadores em abril e maio em suas 830 fábricas de calçados, que representam 80% da indústria local.
Em um ano, 1.218 pessoas foram demitidas. Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, são confirmados por órgãos que representam a indústria e o comércio local. Desde o início de 2015, agências especializadas em fazer a ponte entre candidatos a vagas e possíveis empregadores veem o ritmo de contratações cair.
Conforme o G1 mostrou em reportagem publicada em maio deste ano, o Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Calçados de Nova Serrana (Sindinova) atribui a crise de empregos à inflação acumulada e à cobrança de um imposto estadual retroativo a 2010.
Voltei a morar com meus pais enquanto não arrumo outro trabalho. É difícil, porque a gente tem contas a pagar e depende da boa vontade dos patrões
Guilherme Maciel, 24,  desempregado
"A indústria de calçados é mais frágil, porque a mão de obra é grande e não há tecnologia capaz de substituí-la no processo produtivo. Já em relação ao imposto, a Secretaria de Estado da Fazenda liberou que os empresários paguem esse imposto em até 120 meses, com parcela mínima de R$ 500. Porém, os que devem R$ 10 mil ou mais desse tributo não podem parcelar em mais de 20 vezes. Isso não favoreceu o segmento. Continuamos prejudicados", disse Pedro Gomes, presidente do Sindinova.
O Sindinova acredita que os empresários não foram informados em 2010 nem em 2011 sobre esse imposto. Por isso, não deveriam pagá-lo. A entidade estuda uma forma jurídica viável para contornar o problema.
Na Agência de Empregos Marília Rabello, a gerente Jenifer Bernardes recebe centenas de desempregados por mês. Eles vão ao estabelecimento para conferir as vagas oferecidas e deixar currículos. Porém, não tem havido muita empresa interessada em contratar. "Historicamente, os meses de abril e maio são fracos, porque costuma ser o período de transição de uma coleção de calçados para outra. Junho é considerado o mês no qual as indústrias voltam a trabalhar com sua capacidade máxima e a geração de empregos recomeça. Porém, tem sido diferente este ano. Está bem fraco", contou.

Processo produtivo em fábrica de calçados de
Nova Serrana.

Jeniffer acrescenta que a agência costuma registrar dez contratações por dia, em média, o que não ocorreu nos últimos meses. "Na primeira semana de junho, cheguei a telefonar para muitas das 300 empresas cadastradas na agência, para perguntar se tinham alguma vaga. Elas alegam que estão deixando alguns trabalhadores de aviso, demitindo outros e trabalhando com outros de acordo com o banco de horas trabalhadas. A gente percebe que estão operando com o mínimo da capacidade", pontou.
A situação se repete na agência do Sistema Nacional de Empregos (Sine) da cidade. Em abril de 2014, o órgão ofereceu, no geral, 3.854 vagas. Já no mesmo mês de 2015, foram 467 oportunidades de trabalho a menos. "Esses números são de empregos em todos os segmentos. Como a indústria calçadista é a que mais emprega na cidade, é possível afirmar que houve menos vagas nesse segmento", disse o coordenador do órgão, Geraldo Magela.
Um dos desempregados que buscam uma oportunidade na cidade é Guilherme de Souza Maciel, de 24 anos. Ele foi demitido em janeiro e agora depende de ajuda da família. "Voltei a morar com meus pais enquanto não arrumo outro trabalho. É difícil, porque a gente tem contas a pagar e depende da boa vontade dos patrões", comentou.
Tenho ficado em casa o dia todo, enquanto meu marido trabalha. Antes eu deixava meu filho com minha mãe e trabalhava numa fábrica de sapatos
Marina Souto, 27, desempregada
Condição parecida tem a estudante Marina da Silva Souto, 27. Mãe de um menino de quatro anos, ela não se conforma em não poder ajudar na renda da família. "Tenho ficado em casa o dia todo, enquanto meu marido trabalha. Antes eu deixava meu filho com minha mãe e trabalhava numa fábrica de sapatos", contou ela.
O economista Leandro Maia, da Faculdade de Ciências Econômicas Administrativas e Contábeis (Faced), orienta desempregados que buscam oportunidades de trabalho na capital do calçado. "Se o emprego desejado na indústria calçadista não tem sido possível, o candidato deve pensar que, se esse segmento está ruim, existem alguns serviços essenciais que nunca param de contratar, independente do cenário econômico. São os segmentos dos itens básicos, como alimentação e saúde. Lanchonetes, restaurantes e farmácias, por exemplo", comentou.
Reflexos
Enquanto isso, outros segmentos comerciais são diretamente afetados pela crise nas fábricas. "Muitas fábricas de calçados da cidade colocaram placas em suas portas informando que não há vagas. Isso reflete nos outros setores que geram empregos na cidade, como os escritórios administrativos e também o comércio. Menos gente trabalhando significa menos gente com dinheiro para comprar em nossas lojas", acrescentou Jenifer.
Ela está certa. Segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), o comércio de Nova Serrana começa a sentir esses efeitos negativos após dois a três meses de crise na indústria calçadista. "Temos cerca de 200 empresas cadastradas junto à CDL. O comércio representa cerca de 5% da geração de empregos e da economia da cidade", explicou Hilda Lúcia Pires, secretária executiva da entidade.

Apesar do sentimento de incerteza e queda acentuada nas vendas, o desemprego ainda não foi retratado nas contratações do comércio, que teve uma diferença entre contratações e desligamentos de apenas 0,007% de janeiro a maio de 2015, o que é inferior ao índice registrado no mesmo período de 2014, que foi de 1,032%, de acordo com dados do Caged.
"Podemos notar através dos dados que, mesmo abrangendo uma parcela menor na economia local em relação às indústrias, o emprego no comércio local é mais estável, graças a sua ampla oferta de produtos e serviços, o que acaba atraindo consumidores de cidades vizinhas", acrescentou.
Outro fator influente é a dificuldade do comércio lojista em encontrar mão de obra qualificada, o que faz com que empresários evitem abrir mão de um bom funcionário em tempos de queda nas vendas. "O fato é que o comerciante em geral, mesmo aos trancos e barrancos acaba por sustentar a economia em tempos de crise nas indústrias. Principalmente o comércio de gêneros de primeira necessidade ligados à alimentação e saúde", pontuou Pires.
De acordo com o prefeito Joel Martins, a crise na indústria calçadista impacta negativamente a economia de Nova Serrana. "Pelo fato de que a maioria dos trabalhadores está nesse setor, os prejuízos para a indústria são prejuízos para toda a cidade. A Prefeitura está arrecadando cerca de R$ 2 milhões a menos todo mês, o que tem dificultado a administração como um todo. Por outro lado, estamos trabalhando para reverter esse quadro e continuar oferecendo apoio à indústria e aos empresários", informou.

Nenhum comentário